Calmon Viana - O fim da linha


(Quase) tudo voltando. (Quase) tudo agora.

It’s all coming back, it’s all coming back to me now
there were moments of gold and there were flashes of light
there were things I’d never do again,
but then they always seemed right
there were nights of endless pleasure,
it was more than any laws allow...

If I kiss you like this,
and if you whisper like that,
it was lost long ago, but it’s all coming back to me
if you want me like this,
and if you need me like that,
it was dead long ago, but it’s all coming back to me
it’s so hard to resist, and it’s all coming back to me
I can barely recall, but it’s all coming back to me now


Céline Dion, It’s all coming back to me now

Música para reflexão permanente...

Essa música pra mim sempre foi um poço de reflexões... ou um saco de minhocas, segundo alguns. Na verdade, as únicas pessoas que poderiam saber da importância que essa música teve (ou tem) pra mim são: a pessoa que me dedicou essa música (junto com a qual eu a ouvi a primeira vez) e, posteriormente, a pessoa a quem eu a dediquei (que redescobriu essa música graças a mim).

Apesar dos quase cinco anos passados, apesar de todas as voltas do destino, apesar de todas as provas que tive da incompatibilidade de interesses, apesar do desprezo, da sanha aproveitadora (de ambas as partes) e de muitos “despite of” que ainda há no caminho, essa música ainda me remete ao David. Rapidamente situando o leitor, David foi meu primeiro namorado, o cara com quem eu fiquei mais tempo junto e o cara de quem eu mais gostei, e por mais tempo. O único cara que me fez usar aliança. O único que chegou a me dar vontade de me tatuar. Enfim, ele foi único. Talvez por ter tido tal peso, não consigo até hoje excluir a lembrança dele por completo, por mais que o sentimento já tenha ido pro saco há décadas. Ele foi o que eu tive de mais real.

Bom, um dos finais de semana em que eu ia visitá-lo, ouço essa música no computador dele depois do banho. Gostei do toque da música, da voz da cantora, da batida, de tudo o que alguém que não sabe nada de inglês poderia gostar. Toda vez que eu ia na casa dele, eu pedia pra pôr essa música. Quando completamos seis meses de namoro, ele gravou um K7 com as músicas que (ele achava que) eu mais gostava e entre elas estava essa. Comprei um walkman só pra ouvir a fita em todos lugares... que coisa...

Mas foi só depois de a gente terminar que eu fui prestar atenção na letra da música. “Está tudo voltando”. Fala de uma pessoa que cansou de apanhar na relação e decidiu bater a porta na cara do outro e apagar da vida todos os traços desse outro. Mas vem a lembrança, por mais que essa pessoa queira evitar, e tudo volta, os beijos, os suspiros, os abraços, a carne e as fantasias. Mais do que qualquer lei permitiria.

O David não tem mais lugar na minha vida real. Eu não tenho mais lugar na vida dele. Mas lembrança é lembrança. Principalmente as lembranças boas, que foram muitas. E foram as que ficaram.

I just have to admit that it’s all coming back to me...

E hoje, dia 8, eu acordo às 8h da madrugada com a Yazmín, minha grande amiga, colega de enseñanza de español na Skill, me dando a notícia de que eu PASSEI no vestibular da Fuvest. Vou voltar ao curso de Letras que eu abandonei em 2002. Eu fiz as provas do vestibular crente, crente da reprovação inevitável... que foi evitada. Resolvi fazer vestibular por pressão da minha mãe e, agora, com a aprovação surpreendente, começo a gostar da idéia de estudar de novo, depois de 3 anos parado.

Melhor do que fazer vestibular pra USP e passar é fazer o vestibular pra USP duas vezes (a primeira com 17 anos e agora com 25), as duas vezes sem pegar num livro, sem fazer cursinho, tendo estudado em escola pública a vida inteira e, no caso da última vez, estando há oito anos longe das salas do 2o. grau. E, também no caso da última tentativa, ter melhorado 209 posições no ranking da carreira de Letras. Aos 17 anos, com o aprendizado do Colegial bem vivo na cabeça na hora do vestibular, fui o 384o e agora fui o 175o.

Só pra associar esse evento da minha vida com a música, tudo vai voltar de novo. The flesh and the fantasies. O bom da USP e o ruim da USP. Os momentos de ouro e os flashes de luz, as coisas que eu jamais faria de novo e que de repente parecem certas. Deus queira que voltem também the nights of endless pleasure... Quando saí da USP (pela janela, claro), tirei minhas sandálias e bati no parapeito da janela, dizendo que ‘desse lugar não quero nem o pó’, à la Carlota Joaquina. Cumprindo a maldição bíblica, ‘tu és pó e ao pó voltarás’. Cá estou eu.

O que volta. E o que vai.

Nem só de déjà vu eu vou viver nessa etapa ‘nova’. Em conseqüência da minha nova condição de universitário, minha vida vai virar de cabeça. Acabaram-se os dias de vida mansa, acordando às 12h, demorando parcos 9 minutos entre casa e trabalho. Hoje mesmo já mexi os pauzinhos para trabalhar em uma estação mais próxima da USP e, aparentemente, conseguirei ir trabalhar na Barra Funda, a maior estação metropolitana da América, salvo engano (Metrô, quatro linhas de trem, dois terminais urbanos e uma rodoviária, além do museu do Memorial da América Latina). Enfim, sair de uma estação de cidadezinha praticamente de interior (Ferraz de Vasconcelos) para o mundo civilizado. E como a distância do trabalho pra casa vai passar de 3 para 40 km, vou tratar de mudar de casa também. E mudando de casa, vou mudar várias coisas que eu jamais pensei que fosse mudar um dia.

Mas o que eu mais estou gostando da idéia de voltar a ser universitário não são as novidades, e sim as retomadas. Pelo menos a retomada de um ambiente social de gente com mais afinidade comigo. Trabalhar em estação de trem, pelo menos na estação Ferraz, tem esses tipos de problema. As pessoas são legais, mas não tem ninguém da minha idade nem pessoas com as quais eu possa trocar idéias do tipo sentimental, por exemplo (se eu comento meio alto ‘que cara gostoso aquele’, me olham muito estranho, como se homoafetividade não existisse). Vai ser bom voltar ao mundo.

And it’s all coming back to me now. Afortunately.

Tracionado até aqui por Naná que às 01h32 não tinha nada melhor pra fazer...
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