Calmon Viana - O fim da linha


Sem orgulho, mas sem vergonha

Nu pot face nimic,
totul s-a sfărşit
nu pot face nimic
să te opresc

Nu pot face nimic,
totul s-a sfărşit
nu pot face nimic
tot te iubesc

Viaţa n-are sens acum fără tine
Şi nu pot lupta acum fără tine
Tot s-a năruit că un castel de nisit
Dar eu nu pot să te opresc,
Nu pot face nimic...


Não dá pra entender nada da música? Não tem problema... não é pra entender mesmo. Às vezes eu falo/escrevo coisas só pra eu me situar no tempo e no espaço em relação a passagens da minha vida, e não pra fazer algo ficar mais fácil pra outras pessoas entenderem.

Posicionando-me quanto ao post anterior.

Não, não sou heterossexual, como o autor do texto. Sou gay. Assumido, revelado e conhecido. Sou daqueles que não se revelam, mas também não se escondem. Permito algumas confidências a pessoas com quem eu sinto alguma proximidade, alguma relação mais além do “laboral”, do “coleguismo”. Como as notícias voam, claro que a coisa acaba se espalhando além do limite de que gostaríamos, mas são coisas da vida.

Sofri muito, muito quando fui forçado a sair do armário, lá pros idos de 1999. Graças a Deus e aos dons que eu recebi quando nasci, sobrevivi. Foi ao mesmo tempo o início e o fim da minha adolescência. Menos mal, já que eu considero esse ingrato período da vida uma transição traumática. Quando foram passando os fogos dos hormônios e das defesas apaixonadas de posições, a mente foi se acomodando nas opiniões do ser adulto que eu sou. Hoje considero o fato de ser gay algo tão intrínseco, algo tão parte da minha personalidade quanto o fato de fulaninho ser canhoto ou beltrano ter barba rala. Não vejo mais como algo do qual eu devesse me orgulhar. Devo me orgulhar de ter agüentado – e subsistido – ao fato de minha mãe dizer as piores barbaridades na minha cara sem me dar sequer o direito de rebater? Devo me orgulhar de resistir a todo tipo de comentário sarcástico e maldoso de pessoas preconceituosas quando algo deixa evidente a minha orientação sexual? Não – não ao meu ver. Foram passagens da minha vida, coisas pelas quais eu deveria passar. Um canhoto deve se orgulhar de escrever com a mão esquerda? Eu devo me orgulhar ao saber que todos os abridores de latas, tesouras e muitos outros objetos do dia-a-dia foram feitos pra pessoas que, como eu, escrevem e usam mais a mão direita? Não sei do que devo me orgulhar. Nem das virtudes que conservo, já que nesse mundo conservar virtudes que possibilitam a vida em sociedade não é motivo de orgulho, e sim algo pouco mais do que obrigação. Ninguém vive fora das relações sociais impunemente.

Ser gay pra mim se tornou algo tão natural como ser sozinho. Demorei pouco pra me acostumar a não sentir culpa ao admirar um corpo masculino. Uma observação feita desde cedo na minha vida, é muito fácil se acostumar com o que é bom. Ainda estou trabalhando em mim o fato de que sou uma pessoa solitária. Trabalho, me relaciono, rio, brinco. Na volta pra casa, estou sozinho. Durmo sozinho, como sozinho. A casa vazia se tornou pra mim um misto de refúgio e prisão. Não sei se um dia vou me habituar a isso, sabendo que o ser humano tem a predisposição de procurar eternamente uma companhia.

... mas sem vergonha

Contudo, mesmo sendo perenemente solitário, adoro quando algo que acontece me puxa de volta para o mundo das “pessoas sociais”. Não tenho medo de sentir, não tenho medo de me arriscar. Não tenho medo de sofrer, porque isso vem de um jeito ou de outro. Não tenho mais medo de me entregar. Não tenho medo de viver.

Ao término do turno na estação hoje, fiz uma coisa que raramente faço: beber. Para mim, beber é um ato social, porque o gosto do álcool desce rasgando pela minha goela. Bebo pra estar mais próximo de algumas pessoas cuja proximidade vale essa pena. E raramente passo um certo limite.

Bem, atingido o limite, fui embora. No trem na volta, me deparo com um cara muito bonito me encarando – do exato jeito que me atrai: moreno, branco, olhos claros, usando aparelho (uma tara violenta que eu tenho), boné, minha altura aproximadamente. Bati os olhos nele, exclamei pros meus botões ‘puta, que cara bonito’ e desci os olhos pro livro que eu estou lendo (leituras obrigatórias para a Fudest). Congelei a leitura num determinado momento pra notar que o olhar dele se entrecruzava com o meu a todo instante. Olhares cruzando com olhares, sorrisos combinando com sorrisos. Deixei a parecer, na estação de Calmon Viana, que eu iria descer, e fui (felizmente) seguido por ele. Considerando que eu moro sozinho e próximo a Calmon, não preciso entrar em detalhes a partir daqui. A única pena é que ele deu a entender que a coisa não iria passar disso. E eu, que sinto falta de pessoas permanentes na minha vida e, pelo menos fisicamente, ele parecia ideal.

Mas serviu pra me lembrar de que eu não tenho mais a vergonha de viver. Não tenho vergonha de ser. Não tenho vergonha de arriscar. Não tenho vergonha.

Tracionado até aqui por Naná que às 00h58 não tinha nada melhor pra fazer...
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Pode me chamar de gay

Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. Pode me chamar de gay, é um elogio. Pode me chamar de gay, apesar de ser heterossexual, não me importo de ser confundido. Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é um julgamento, é uma referência. Pode me chamar de gay, não me sinto desaforado, não me sinto incomodado, não me sinto diminuído, não me sinto constrangido. Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a vaidade. Está dizendo que me preocupo com a verdade. Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que me importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher as roupas. Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços. Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro toalha de mesa como se fosse um pijama de seda. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro. Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei a minha sexualidade, reinventei meus princípios, reinventei meu rosto de noite. Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor do íris, no castanho dos cílios. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher, que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo o táxi com grito. Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor. Pode me chamar de gay. Está dizendo que vou esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas, que não economizo elogios, que coleciono sapatos. Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever. Pode me chamar de gay. Que seja bem alto. A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo.


Fabrício Carpinejar

Tracionado até aqui por Naná que às 01h34 não tinha nada melhor pra fazer...
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No te bajes, no te bajes,
oye, negrita, mira, no te rajes...
de lunes a viernes tienes mi amor;
déjame sábado a mí, que es mejor.
Oye, mi negra, no me castigues más
porque allá afuera sin ti no tengo paz...
yo sólo soy un hombre arrepentido
y como el ave que vuelve a su nido...


Já passou das 23h e estou no aconchego do lar, olhando pra tela do computador, ouvindo Shakira e o tilintar dos talheres dos pernilongos, meus sempiternos companheiros de Calmon Viana, que sentiram falta do seu jantar de todas as noites durante esse ano novo, já que eu trabalhei no período noturno dias 31 de dezembro e 1° de janeiro.

Fazendo uma pausa necessária, acabei de entrar no meu blog e vi que o post anterior teve o recorde de DOIS COMENTÁRIOS!! O comentário do Andy, de praxe, e o da Daniela, uma ijuiense (é assim que se chama quem nasce em Ijuí – RS?) que tem um blog muito legal, http://dactilusnigrus.blogspot.com ou algo do tipo. Esse nome do blog dela me faz lembrar a minha infância, nas raras vezes em que eu comia bombom de chocolate e ficava com os dedos pretos... heheheh

É, foi infame, mas quem sabe a intenção não era justo essa...

Aliás, alguém me ensina qual o código HTML pra colocar link nessa joça? Meu infindo conhecimento se resume ao itálico e ao negrito e vou assimilando conhecimentos dessa ordem aos poucos. Beeeeem aos poucos.

Uma hora de trabalho para cada dente da boca

Posso dizer com certeza que nunca antes tinha trabalhado tanto: entrei na estação às 13h30 (oficialmente, porque na verdade cheguei bem antes disso) de 31 de dezembro, saí às 5h30 (idem, porque saí antes) de 1° de janeiro pra voltar no mesmo dia às 13h30 (na verdade já estava lá às 12h30) e trabalhar até as 5h30 de hoje, dia 2 de janeiro (foi às 5h30 de verdade, enfim). Tal carga horária kamikaze tem um único culpado: a fuDest. É duro trabalhar em regime de escala e fazer vestibular – os organizadores de vestibular acham que todo mundo que está se esfalfando de estudar pra conseguir um lugar às trevas na USP (Universidade Sem Professores) são adolescentezinhos de 17 anos bancados pelos pais e que não têm nada de melhor que fazer aos finais de semana em janeiro além de ir à balada e beijar todas (ou todos, vai saber).

As provas da segunda fase tomarão três dias da vida de uma cacetada de neguinhos e neguinhas que por diversos motivos não querem pagar pra fazer faculdade – no meu caso esses três dias serão 8, 9 e 10 de janeiro. Meu problema é que eu folgo a cada três ou quatro dias e essas folgas nem sempre (ou melhor, quase nunca) coincidem com compromissos marcados por outras pessoas que não a gente. Dias 9 e 10 eu estaria trabalhando, mas fiz um chamado “bem-bolado” com um colega que trabalha no turno da noite: ele trabalharia esses dois dias por mim e eu, em troca, trabalharia no turno dele dias 31 de dezembro e 1° de janeiro. Nem preciso dizer quem saiu ganhando na história.

Trabalhei 32 horas praticamente sem descansar. Esse arranjo serviu pelo menos pra me resolver um problema, além das folgas para o vestibular: onde passar a virada de ano. Sempre me vejo enroscado nesse dilema. Onde devo me aborrecer dia 31 de dezembro? Na Paulista, no meio da muvuca de gente (onde eu me sinto numa “parada hétero”, com som ensurdecedor e nenhum casal gay se beijando pra eu poder me sentir em casa)? Com o “núcleo duro” da minha família? Na casa de algum amigo que também não curte essa babaquice de virada de ano? Sozinho, eu e os pernilongos, Reginaldos e Vivianes, em Calmon Viana? Pois bem, como eu me sentiria aborrecido em qualquer lugar, preferi ganhar pra isso.

Agüentei a noite à base de Red Bull® (nem faço merchandising, é só porque no momento me fugiu o nome genérico desse tipo de bebida). Ontem eu tomei três, um seguido do outro. Ô negocinho ruim – pra quem nunca tomou, imagine um ki-suco de abacaxi, daqueles que são vendidos a R$ 1,00 em qualquer padaria da Vila Brasilândia ou de Olaria, hiper concentrado. Pronto, imaginou? Agora imagine que ele foi preparado usando água com gás. Et voilà! O que sei é que o bicho realmente funciona. O encarregado da noite chegou chumbado às 21h30 do dia 1°, tomou um gole e ficou aceso durante todo o turno, até as 5h30. Imagine eu, que tomei 3 latas.

Alguém se lembra de um episódio dOs Simpsons onde a Maggie, por falta de vigilância alheia, tomou um pote inteiro de sorvete de café e ficou a noite inteira sem dormir? Foi o que aconteceu comigo. Nas parcas 6 horas de descanso que eu tive entre uma jornada e a outra, fiquei deitado na cama olhando pro teto, contando pernilongo. Tal como conspira a lei de Murphy, quando comecei a relaxar e pegar no sono, tocou o despertador. Em compensação, as 16 horas seguintes eu passei tri-acordado. Cheguei em casa hoje de manhã disposto a dormir e acordar às 16h ou depois. Humpft... minha mãe me liga às 12h, crente de que eu estaria me preparando pra trabalhar. E não dormi mais...

Gaaaaaah, escrevi um monte de coisa nada-a-ver! F*da-se!

Peguei roupa pra lavar. Mal pus a roupa de molho e começou a chover. Parou de chover só às 23h e não vou me atrever a sair no quintal a essa hora pra lavar roupa – sou louco, mas ainda não estou rasgando dinheiro.

Termino por aqui, já que duvido que alguém vá ler esse post inteiro.

P.S.: Aí vai uma enquête pra quem quiser responder:
Como você dribla o sono quando precisa ficar acordado?

(__) com café (porque todo mundo pensa nisso logo de cara)?
(__) com rebites/remédios (pra atacar a gastrite e você não pegar no sono por causa da dor de estômago)?
(__) dando ao seu irmãozinho adolescente o CD com que ele sonhava havia meses (pra ele colocar no CD player no último volume até quando conseguir memorizar todas as letras)?
(__) bebendo algum energético (lembrei do nome!!) (pra você ter a impressão de que está na balada)?
(__) colando durex no olho pra ele ficar aberto?
(__) outro (por favor, diga qual – não conheço nenhuma outra forma)

P.S. 2 (que não é o PlayStation): Alguém se lembra de que eu tentei uma vez cozinhar? Pois bem. Foi uma experiência única – nunca mais repeti. Devo? Olhando o arroz com frango que até agora estão na geladeira, penso mais de duas vezes.

P.S. 3: Já que não pus foto nenhuma hoje, vou colocar uma bem despropositada, só pra não fugir ao costume.

See you, folks!


Pra quem achava que o nome Calmon Viana foi invenção minha.



Tracionado até aqui por Naná que às 00h15 não tinha nada melhor pra fazer...
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